Feeds:
Posts
Comentários
narnia2.jpg
A atriz Tilda Swinton interpretou a Rainha Jadis, A Feiticeira Branca, personagem do mundo de Nárnia no filme O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa, adaptado do livro de mesmo nome de C.S.Lewis.

Assim diz a Bíblia de Estudo Batalha Espiritual e Vitória Financeira em um de seus tópicos

Pobreza é escravidão! Ela amarra as pessoas, impedindo-as de terem as coisas de que necessitam. A pobreza leva à depressão e ao medo. Não é a vontade de Deus que você viva na escravidão da pobreza. É hora de Deus acabar com a escravidão das dívidas e da pobreza no meio de seu povo! É chegado o momento da liberação de uma unção financeira especial, que quebrará as cadeias da escassez e o capacitará a colher com abundância.

Na tentativa de descobrir que palavras teriam inspirado o comentarista a redigir esta nota, descubro ser impossível conciliar a honestidade intelectual do escritor e a Mensagem do Evangelho. Não há como extrair das falas e da vida de Jesus uma explicação tão rasa do problema da pobreza. Justo o nazareno, que insistiu em dizer que seu Reino não era deste mundo.

Busco, então, entender o que se passa. Não teria o autor em questão, por engano, comentado uma peça de ficção? Isso mesmo! E se, por exemplo, Edmund – o garoto curioso das Crônicas de Nárnia – tivesse preservado algum livro sagrado da Feiticeira antes da destruição de seu império por Aslam, o Leão? Por excesso de zelo, C.S. Lewis não teria divulgado o teor dos oráculos da Feiticeira Branca, nem mesmo dado o brilho de sua pena a tais palavras, contudo seu segredo foi guardado por não muito tempo. Então, o influente comentarista teria tido acesso aos oráculos da Rainha Jadis e, equivocadamente, comentado-os em sua Bíblia de Estudo Batalha Espiritual e Vitória Financeira!

Nessa hipótese, suponho que os textos da rainha má a que teve acesso o autor diriam algo como:

E vendo Jadis as multidões, subiu à parte alta de seu palácio. Vendo que falava a rainha, calaram-se seus súditos; ela passou a ensiná-los, dizendo:
Felizes os moral e intelectualmente elevados, porque o mundo a eles pertence.
Bem-aventurados os inabaláveis, porque não necessitam de consolo.
Bem-aventurados os que não toleram oposição ao triunfo de sua causa, pois destes é a terra.
Abençoados os que fabricam justiça para si, porque têm seu coração farto.
Felizes os que não toleram o erro, pois se alimentarão de sua perfeição.
Abençoados os de reputação intocável, porque me agrado de sua boa fama.
Bem-aventurados os soldados que militam pelas causas e vontades de sua Rainha, me orgulho de tais súditos e os tenho como filhos.
Bem-aventurados os que impõem sua própria justiça ao ímpios rebeldes, porque têm lugar junto aos de espírito elevado.
Felizes são quando, por minha causa, revelarem publicamente os enganos dos infiéis e seus motivos desprezíveis, e os buscarem em seus refúgios.
Alegrem-se de coração e festejem com toda alma de vocês, porque grande é sua prosperidade; pois assim fizeram os que vêm agradando minha dinastia há séculos.

Outras hipóteses? Aceito sugestões.

Um recado do pastor Mala Feia: você pode adquirir a Bíblia de Estudo Batalha Espiritual e Vitória Financeira clicando aqui.

Os oráculos da Rainha de Gelo AINDA não estão disponíveis para venda.

Por Tiago Meireles.
Fui apresentado ao tópico sobre a pobreza pelo blog
http://aignoranciaeumaescolha.blogspot.com/

tomas-de-aquino4.jpg 
Detalhe do afresco “Triunfo de São Tomás de Aquino sobre os hereges”, de Filippino Lippi. O clérigo aparece escoltado por quatro figuras femininas que representam a filosofia, astronomia, teologia e gramática.

A primeira e mais persistente imperfeição a tentar roubar o brilho da originalidade de Jesus como apresentado nos evangelhos foi o gnosticismo. Decalcado sem sutileza da visão de mundo das religiões de mistério, o gnosticismo crê, essencialmente, que a salvação está condicionada ao acesso a um conhecimento secreto – a gnose – através do qual o iniciado nos mistérios da religião pode conectar-se à divindade e beneficiar-se dela.

Alguns crêem que o Apóstolo escreveu a maior parte de suas cartas para combater o alastramento da mancha gnóstica no seio virgem da igreja primitiva; outros juram de pé junto que Paulo não estava ele mesmo imune à sua influência, e que muitas de suas passagens e argumentos promovem ou pressupõem a visão de mundo gnóstica.

Certo é que nenhum outro conceito tem permeado tão unanimemente e por tanto tempo a mentalidade cristã de todas as tendências e estirpes do que a confiança tipicamente gnóstica na supremacia ou na necessidade de um conhecimento secreto – isto é, específico – como condição para a salvação. Com o tempo, naturalmente, o gnosticismo foi demonizado com este nome; entre os cristãos o conhecimento secreto passou a ser chamado e idolatrado como crença correta – ou ortodoxia, que é como se diz em grego.

 Só a ortodoxia salva.

A relação dos cristãos com a ortodoxia é primordialmente idolátrica. Se pressionados, cristãos de todos os matizes acabarão concordando que não é uma religião particular que beneficia o adorador, mas algum aspecto da bondade divina expresso na vida, morte e/ou ressurreição de Jesus. Na prática, no entanto, todos tentarão convencê-lo de que para beneficiar-se desse privilégio gratuito é necessário abraçar determinado conjunto muito específico de noções a respeito de Deus, da vida e da salvação. A esse conjunto de “crenças corretas”, que nenhuma facção cristã tem em comum com a outra, é que se dá o nome fortuito de ortodoxia.

A paixão com que os cristãos defendem seus pontos de vista uns contra os outros reflete com precisão a extensão de sua ortodoxolatria. Jesus é muito bonzinho e tal – mas só a ortodoxia salva, e ninguém vem a Jesus se não for por ela.

Ortodoxolatria – ou gnosticismo cristão – é a crença praticamente universal (entre os cristãos) de que para beneficiar-se do favor de Jesus é preciso sancionar uma série racional e muito específica de assertivas a respeito de como Deus funciona. Ser cristão não é, segundo essa visão, uma postura pessoal de confiança no cacife de Jesus; não é questão de posicionamento moral, psicológico ou espiritual. Para os partidários da nova gnose ser cristão é assunto da cabeça e da razão; depende da consistência do nosso discernimento intelectual, demonstrada pela filiação ao rol apropriado de afirmações teológicas – em detrimento, naturalmente, de todas as outras.

É por sermos todos ortodoxólatras que entre a leitura deste parágrafo e do anterior uma igreja em algum lugar se dividiu e se criaram duas – cada uma acenando com sua própria versão da gnose, o conhecimento apropriado que tem poder para salvar. Gente que sentava-se no mesmo banco para cultuar estará a partir deste momento separada pelo abismo de sua fé inabalável na necessidade da crença correta. Terão discordado irreparavelmente sobre algum ponto crucial da sã doutrina: se mulher tem direito a pregar, se Jesus visitou o inferno, se milagres acontecem, se o arrebatamento vem antes ou depois do milênio, se o Espírito é derramado em uma ou duas prestações, se Jesus ressuscitou, se um homem pode dormir abraçado a outro; se cristão pode se divorciar, abortar, assistir televisão, cortar o cabelo, tomar cerveja, ouvir Raul Seixas, ler ficção científica, usar camisinha, suicidar; se é certo usar crucifixo, votar em comunista, acender uma vela, comprar a prestação, pagar o dízimo, fazer o sinal da cruz, chorar aos pés de uma estátua, jogar na loteria, batizar criança, fazer sexo antes, durante e depois do casamento. As combinações são incontáveis, e cada facção proporá sua versão particular da gnose. Uma única coisa todos os grupos apresentarão em comum: a fé subjacente e implacável na ortodoxia, o paradigma que pressupõe a supremacia e a necessidade de uma única posição doutrinária/teológica/ideológica formal e a conseqüente demonização das outras. Como dizia Borges, interessa-lhes menos Deus do que refutar os que o negam na sua versão.

Essa confiança nos benefícios inerentes de uma apreensão intelectual adequada dos mecanismos de Deus não poderia estar mais distante da postura de Jesus, para quem apenas comparações podem produzir um vislumbre da natureza do Reino e – mais importante – todos os homens podem beneficiar-se da postura cavalheiresca de Deus, independentemente do acesso a qualquer conhecimento secreto ou específico. A inescapável graça de Deus, segundo Jesus, está pronta a agir em favor não apenas dos pecadores – o que deveria parecer por si mesmo admirável – mas também dos incompetentes, dos deficientes, dos tolos, dos insensatos, dos imaturos. A verdade foi escondida, garante Jesus, dos doutos e estudados e revelada aos mais parvos dos discípulos. Para entrar no Reino é necessário que nos tornemos “como crianças” – condição que não denota, ao contrário do que se pensa, um atestado de inocência, mas de incompetência. Para beneficiar-se do Reino é preciso ser incapaz. Requer-se não ter noção do que está acontecendo e não ter noção de como parar o processo aparentemente irreversível do qual fazemos parte. É preciso ser capaz de baixar a bola e delegar o controle e a compreensão do que está acontecendo a outro. É preciso ter uma vaga idéia, não certeza. Fé, não crenças. Confiança na suficiência do cavalheirismo de Deus, não no mérito arbitrário da ortodoxia.

Por Paulo Brabo
Mais textos do autor em www.baciadasalmas.com

cruzbanksy.jpg
Banksy

Vê-se pela figura acima que o misterioso grafiteiro-militante Banksy não precisou visitar a feira aberta do mercado religioso brasileiro para discernir quem é o ”Jesus” de quem muito se fala por aqui.

Mais uma evidência de que o fast-food servido nas “santas-ceias” pelas bandas de cá é uma adaptação de segunda linha daquilo que de pior se produz no Hemisfério Norte.

Não menos misterioso que Banksy, o autor da epístola aos Hebreus – de identidade oculta há dois milênios – dá-nos uma idéia do quanto o Jesus dos evangelhos e aqueles que por sua Graça foram cativados trilham um caminho diametralmente oposto àquele dos ”caçadores de bens-çãos materiais”:

“Todos estes morreram na fé, sem ter obtido as promessas; vendo-as, porém, de longe, e saudando-as, e confessando que eram estrangeiros e peregrinos sobre a terra. Porque os que falam desse modo manifestam estar procurando uma pátria. E, se, na verdade, se lembrassem daquela de onde saíram, teriam oportunidade de voltar. Mas, agora, aspiram a uma pátria superior, isto é, celestial. Por isso, Deus não se envergonha deles, de ser chamado o seu Deus, porquanto lhes preparou uma cidade.”

Por Tiago Meireles. 
Outras obras de Banksy em http://www.banksy.co.uk

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.